Entre os teus campos de garbosos cavalos, um burro (espécie que eu via agora pela primeira vez nestas terras abaixo do nível do mar), vaquinhas de semanas e algumas mais velhas, fomos indo lentamente, de carro, naquelas estradinhas estreitas, onde não é possível estacionar, a não ser nas entradas privativas das enormes
villas que as ladeiam. Ali ao pé, o
Naardermeer, a primeira reserva natural dos Países Baixos (1906), e que prometi, de imediato, interiormente, visitar um dia. Chegados ao centro da tua
vila muito antiga, contemplámos os barcos de recreio que pareciam dormitar nessa tarde amena ao longo do rio
Vecht, enquanto víamos a ponte branca dividir-se ao meio para acolher, como num abraço ao alto, outros barcos semelhantes que, naquele momento, chegavam, regressados dos passeios daquele dia luminoso que se fazia sentir. E também aí, no centro, as casas impressionavam - que depois de pousadas no nosso olhar, vislumbrávamos, através das janelas, os tectos interiores em traves de madeira dessas
rooms de recepções de outros tempos, mais precisamente do século XVII, considerado o
Século de Ouro holandês. Janelas que nos pareciam levar numa dança de valsa, por divisões interiores infinitas até aos seus jardins particulares, lá ao fundo, onde, os caramanchões de flores, ainda hoje, juram a pés juntos, terem testemunhado muitos amores ao longo dos últimos quatro séculos. Seguimos, então, por aquela margem do
Vecht, bordada, aqui e ali, a esplanadas de flores lílases e pessoas elegantemente vestidas, de copo de vinho branco na mão, e voltámos na
Slijkstraat, em direcção ao café-restaurante
Weesperplein. No pequeno pátio da casa, de mesas com vasinhos de lavanda e centro decorado a árvore de oliveira, ouvíamos, de vez em quando, o carrilhão e os sinos da igreja, à medida que o tempo se sagrava num contínuo. E jantámos, com água na boca, os primeiros mexilhões do ano
à la holandesa, frescos e acompanhados de vegetais. Já depois da mais deliciosa
panna cotta ever, acompanhada de cubinhos de manga, menta e geladinho de gin tónico, saímos de regresso. As janelas das casas eram agora espelhos de final de tarde e mais pareciam quadros pendurados nas respectivas frontarias. Lá ao fundo, no rio
Vecht, as velas dos moinhos fulgiam nos laranjas do sol que agora se punha...Uma aragem, no entanto, já se fazia sentir, e como não tínhamos trazido casacos, abrimos as portas do carro e seguimos viagem. Relaxados, e envolvidos pelo dia, que caía em cascatas de cor, suavemente.
E enquanto te deixava para trás, escutava, sorrindo: "Sometimes It Snows in April"...