Utrecht, especialmente por dois motivos, é uma cidade muito importante e significativa para mim.
Quando fui para lá, em Abril de 2008, não sabia uma única palavra de Neerlandês, nem tão pouco de Alemão, pois, em Portugal, só tinha estudado Inglês e Francês. Durante a frequência do nível A1, senti-me muito perdida. A maioria dos meus colegas já vivia nos Países Baixos há 4 ou 5 anos e estava lá para estruturar os conhecimentos básicos da língua (alguns colegas até já tinham "tido umas luzes", em cursos iniciais, nos respectivos países de origem). Lembro-me que foi especialmente difícil habituar-me aos sons e à construção frásica do Neerlandês (parecia que tinha de pensar ao contrário).
A curta duração de cada aula (2h cada, se a memória não me falha), a frequência das aulas (3 vezes por semana), a curta duração dos módulos (2 meses e meio) e a dimensão das turmas (16 alunos, em média) também não facilitaram o processo de aprendizagem. Era impossível, nestas circunstâncias, que cada um de nós tivesse oportunidade de falar um bocadinho em cada aula. A consolidação das aprendizagens também era prejudicada com o método seguido: cada aula correspondia a um novo tema e a novas regras de gramática. Não havia tempo de reflexão, de maturação, sobretudo para quem, como eu, estava literalmente a zeros. Lembro-me de me sentir uma menina de 6 anos, a dar os primeiros passos na Escola Primária, mas, desta vez, sem aquele conhecimento básico e elementar da língua que se adquire nos primeiros anos de socialização com a família e os amiguinhos e vizinhos mais próximos. Aos 37 anos, sentia-me completamente desadequada, desajustada e infantil.
À época, já sofria de Hipotiroidismo e não sabia: o raciocínio estava muito lento e a memória, "nas ruas da amargura". Nunca me tinha sentido assim em toda a minha vida. Na Escola Primária, fui a melhor aluna da classe e, na Telescola, estava entre as 5 melhores do posto. Já no Liceu, andava entre as três melhores da turma e, na Faculdade, era uma aluna mediana (quando tinha tempo para estudar melhor, até conseguia umas notas simpáticas).
Levei 2 anos para conseguir que os médicos holandeses me levassem a sério e que eu não estava assim, cansada, por ter mudado de país, como me foi dito pela minha primeira médica de família. Se aquela tonta soubesse um décimo da minha vida, não dizia tamanho disparate ( de cansaço, percebo eu e bem). Eu não me reconhecia, tinha saudades de mim, da rapidez do meu raciocínio e da forma fácil como costumava aprender. Foi um período deveras angustiante.
Sempre me coloquei na vida como uma eterna aprendiz, curiosa em relação ao mundo e grata por qualquer correcção que me queiram fazer e me permita melhorar. Na Escola Primária, lia muito. Primeiro, porque gostava e segundo, porque, a partir dos meus 7 anos, deixou de haver dinheiro para comprar bonecas e só havia duas coisas que podia fazer, além de brincar na rua ou na casa das vizinhas: ler (todos os dias ia à biblioteca buscar livros) ou dar caminhadas com o meu avô, durante as quais falávamos de tudo, sobretudo de política e história, sempre à medida da minha idade. O meu avô, que era analfabeto, foi o homem mais inteligente que conheci - tinha muita experiência de vida, sabia simplificar os assuntos e enquadrá-los muito bem. Ele conseguia transportar-me a outras épocas, a outras realidades (era como se as visualizasse, estivesse lá) e foi com ele que ganhei o hábito de ver os noticiários e de procurar e comparar informação. Muito do que sou hoje, devo ao meu avô. Era um homem muito íntegro e honesto, que me ensinou a encarar a realidade de frente, por mais dura que ela fosse.
Quando terminei o nível B1, o professor disse-me que estava com dúvidas se me devia passar ou não (a minha média era de 50%). Ele sabia que eu tinha trabalhado muito, mas as aprendizagens estavam aquém do desejado para "me aguentar" no B2. Eu vi que ele estava tentado a passar-me, mas disse-lhe, na hora, que, em caso de dúvida, não se deve passar um aluno (a melhor forma de defender-me, enquanto aluna, era reter-me no B1). Ele sorriu e eu senti-me em paz e ...inteligente, pela atitude tomada.
Foi só na repetição do B1 que comecei a perder o medo de abrir a boca. Mas houve um dia que me tocou particularmente. Nessa tarde, "desabei" e chorei no campus da Universidade. A professora apresentou uma imagem do Mosteiro dos Jerónimos e perguntou-me se podia descrever o estilo arquitectónico do edifício. Eu, contentíssima. O tema era da minha área de formação, um monumento que acho lindíssimo e, de repente, era como se todas as palavras quisessem saltar da minha boca. O pensamento chegava veloz, o coração batia mais depressa, mas a fluência que eu queria ter não surgia...em Neerlandês. A professora foi um bocado impaciente e foi um dos momentos mais tristes da minha vida. À saída da aula, discretamente, sentei-me junto a uma árvore e as lágrimas correram-me cara abaixo. Não era parva que não soubesse que o nível de complexidade dos temas e a duração dos módulos estavam completamente desadequados entre si. Tinha consciência disso. Mas o desejo, a paixão de falar sobre o que gostamos e não conseguir, dói. Eu sabia que a professora queria uma descrição simples, mas, nesse caso, talvez devesse ter escolhido, por exemplo, um edifício do Estado Novo - aí, já seria mais fácil, creio...;-))
Mas, pronto, a Vida é isto mesmo: momentos, experiências e tudo faz parte, dores e alegrias, e sobretudo, os afectos...
Oudegracht e Utrecht trouxeram-me duas pessoas de quem gosto muito e por quem me sinto muito estimada. No dia que tirei esta fotografia, estive com ambas. Uma delas, a M. veio com os gémeos passar a tarde comigo. Foi uma tarde de gargalhadas, desabafos, partilhas e dos putos a correr pela sala. Sentadas no chão, entre almofadas e mantas, a comer o que ela trouxe, que eu não tinha nada em casa, e ela a experimentar os casacos que me deixaram de servir e nela estavam óptimos e ficavam melhor ainda. No final da tarde, nem foi preciso pedir, levou-me até Utrecht, que lhe ficava a caminho, para me encontrar com a R., que me tinha telefonado dias atrás a dizer que ia estar na cidade e queria ver-me, antes da minha ida para Portugal. Foi giro ter estado com as duas e no mesmo dia, na cidade onde nos conhecemos.
Gosto desta foto, especialmente, por isso. Estas duas meninas já me deram muitas alegrias e tudo começou em Utrecht, no
Oudegracht....
E, da minha infância boémia entre os 4 e os 7 (nem vocês imaginam, juro que não estou a brincar....), Carlos do Carmo. O meu pai gostava imenso dele e, por conseguinte, ouvia-se muito, lá em casa.
"No Teu Poema", esse maravilhoso pedaço de poesia de
José Luís Tinoco.
Próxima paragem: Lisboa...