Tuesday, 10 January 2017

Arrepiada, hoje, neste momento


Arrepiada, hoje, neste momento. Magnífico.

Independentemente de cores políticas (haja elevação!) e de termos estado de acordo ou em desacordo, aqui e ali, ou até muitas vezes, saibamos focar-nos no essencial e sermos gratos quando o momento se impõe.

Se há máxima que defendo, é esta de Voltaire: "Não estou de acordo com aquilo que dizeis, mas lutarei até ao fim para que vos seja possível dizê-lo.". Uma máxima que vejo pouco praticada no quotidiano, quando, em caso de desacordo, somos cilindrados como inimigos, em vez de considerados como seres dotados de autonomia de pensamento e com o direito a ter uma opinião diferente.

Por isso, mesmo não sendo socialista, laica e republicana, quero dizer que a minha gratidão vai principalmente para o momento em que separou as águas, sem margens para dúvidas, no pós-25 de Abril, e que ficou crystal clearneste célebre debate

Num desabafo muito pessoal, acho que o momento em que menos gostei dele, foi em miúda, quando o ouvi dizer que teríamos de apertar o cinto e vi a angústia da minha mãe, quando balbuciou que não tinha mais buracos no cinto para apertar....

Embora esta conjuntura específica e da qual tenho más recordações (sei bem as faltas que passámos!), acho que é importante não me desviar do essencial, que é a DEFESA DA LIBERDADE. Para mim bem espelhada na máxima de Voltaire e na coragem de muitos, que sofrendo exílios, prisões, degredos e torturas, lutaram para que hoje possamos viver nesta tão sonhada e desejada LIBERDADE (até para discordarmos deles de quando em vez, ou quase sempre, noutras questões). E que nunca esqueçamos que esta LIBERDADE teve um preço muito elevado para muitos corajosos e as respectivas famílias, como a PESSOA que hoje se homenageou. Que saibamos, por isso, estimar e defender, com RESPONSABILIDADE e RESPEITO, esse LEGADO, por todos  e cada um de nós. Sobretudo agora, em que, muitas vezes, é dado, de forma tola, por eternamente adquirido, e me parece cada vez mais frágil e prestes a partir-se a qualquer momento...

Neste espaço de PAZ, que respeita a liberdade de expressão e a diversidade política, religiosa e cultural de todos e cada um.

Um bem-haja a todos!

NB: texto ligeiramente reeditado às 23:45.


10 comments:

Os olhares da Gracinha! said...

Errou...acertou...agradou
...desagradou!
Um lugar na História está garantido e que descanse em Paz!
Gostei da partilha... Bj

João Menéres said...

Felicito-te vivamente pelo teu texto, Sandra !

Um beijo amigo.

Presépio no Canal said...


Graça,

Um lugar na História, sem dúvida.
Paz à sua Alma.

Beijinho! :-)

Presépio no Canal said...


João,

Muito obrigada! :-)

Beijo amigo também para ti.

Paula Lima said...

Agradar ou desagradar acho que lhe era indiferente. Queria todos livres e em democracia, sem perseguições (e foi-o - ontem fiquei a saber que de uma das vezes que esteve preso em duas semanas de cela tinha 15 minutos de pátio).
Apertar o cinto foi das coisas mais difíceis que tivémos que fazer! (quando havia racionamento de açúcar, não sei se nessa altura? lembro-me de ir cada um de nós lá de casa comprar um quilo ao super, em alturas diferentes do dia)

Presépio no Canal said...


Paula,

Admiro muito a coragem que teve na defesa da Liberdade. Acho que fazem falta mais pessoas assim. Porque, se não tivermos essa consciência, qualquer dia, sem darmos por isso, ainda ficamos sem ela, novamente...
Lembro-me dos tempos de racionamento, sim.
https://www.dinheirovivo.pt/outras/galeria/cinco-marcos-da-economia-pela-mao-de-mario-soares/
Espero que não voltem.

bea said...

Concordo. Não temos de ser soaristas para admirar o homem e o político visionário e reconhecer que o Portugal democrático lhe deve muito. Pessoalmente, admiro-lhe as convicções pessoais e o carácter, a sua energia e vontade inabaláveis de um clima de liberdade para todos os portugueses com cuidados de saúde assegurados e significativa melhoria nas condições de vida e na educação de todos e não apenas de alguns.

Economica e socialmente falando, nenhum tempo da democracia foi tão mau como a ditadura. Os racionamentos de açúcar, se os houve, quem nem me lembro deles e já era adulta, nada são se comparados com o tanto que antes nos faltou. Antes, a miséria não era um ponto aqui e ali, era realidade em larga escala.

Maria Barroso foi uma senhora extraordinária que não esteve atrás de um grande homem. Também me comoveu ouvi-la.

Presépio no Canal said...


Bea,

Faz-me impressão o sectarismo -lá porque a pessoa possa pertencer a um partido que não o nosso preferido (e nem sempre este acerta), não quer dizer que se não lhe reconheça o mérito, as horas felizes e em que esteve bem e lutou por bens maiores, como é o caso da Liberdade.
Espero que a Ditadura nunca mais volte. Faz-me muita impressão a falta de Liberdade, prisões sem julgamentos, torturas, deportações por se ter uma opinião diferente. Tenho muito respeito por quem nos trouxe a uma Democracia pluripartidária.
O meu avô costumava contar-me muitas histórias desse tempo e da pobreza também, sobretudo nos anos 40. Também me contou outras do tempo da I República.
Os tempos de austeridade da primeira entrada do FMI foram difíceis lá em casa (coincidiu co a morte do pai e a falta de mais um salário) e lembro-me do racionamento ser mencionado por diversas vezes.
A Maria Barroso declamava muito bem. Bolas, que até chorei, depois de ouvi-la!
Imagino a carreira no Teatro que teria tido e que sacrificou por um bem maior, para apoiar o marido e a causa da Liberdade. Gostei muito das palavras da filha relativamente à mãe, nas cerimónias de ontem.


MR said...

Eu sou «republicana, laica e socialista», mas acho que este post tocou no ponto essencial, através da citação de Voltaire. É por isso que todos somos devedores de Mário Soares: no essencial, acertou sempre, viu sempre para além do momento que se vivia, para o futuro.
Parabéns pelo texto.

Presépio no Canal said...


MR,

Obrigada. :-)
Concordo inteiramente. Ele foi a mudança que quis ver e viver na prática, e da qual TODOS hoje beneficiamos, no que à causa da Liberdade diz respeito. E com todos os sacrifícios que isso implicou para ele e para a respectiva família. E também nos colocou na CEE, hoje UE, onde eu gosto muito de estar, apesar de tudo.