Thursday, 11 July 2013

Texto-Expat da Semana: "Custos com a chegada do bebé"


Hoje, a Ângela publicou no seu blogue (http://vivendoamsterdao.blogspot.nl), um texto muito interessante, que achei por bem partilhar aqui, dado que exemplifica na perfeição, a simplicidade e o espírito prático do povo holandês, bem como, a forma cuidadosa como gere os seus recursos, apostando na reciclagem, na partilha de bens em segunda-mão e no reaproveitamento dos bens disponíveis.

Custos com a chegada do bebé

"Isto de viver na Holanda tem as suas vantagens – as nossas despesas com a mobilia para o quarto do bebé e afins têm sido muito reduzidas até agora. Ao contrário daquilo que via em Portugal, em que se gasta uma pequena fortuna para comprar tudo novo (seja para o bebé, seja para as crianças em idade escolar), os holandeses têm por hábito dar e/ou vender aquilo de que já não precisam. E outros expats que vivem na Holanda vão adquirindo o mesmo hábito. Foi assim que, por mero acaso, vi num grupo do Facebook que um casal de portugueses que mora em Lelystad tinha um conjunto de alcofa, carrinho de passeio, maxi-cosi e saco muda-fraldas de que já não precisam e perguntavam se alguém estava interessado – junto com isso, ainda nos deram uns conjuntos de lençóis para berço, cobertores, fraldas, algumas roupas e brinquedos. Do mesmo modo, a minha supervisora disse-me que ainda tinha o parque do filho de que já não precisava – era só passar por casa dela para ir buscá-lo. O berço, comprámos em 2ª mão por cerca de um terço do preço, através de um site holandês, a um casal que vive no centro de Utrecht. E só pagámos pelo berço porque achei aquele modelo específico prático pois dá para transformar em cama – caso contrário, também havia outros berços usados e em boas condições para dar a quem desse jeito.No outro dia, um outro colega que tem uma menina pequenina, abordou-me na cantina para dizer que ainda tinha em casa a cadeira onde a mulher dava de amamentar à filha; não a usavam mais e perguntou-me se eu já tinha uma e se estaria interessada.Outra vez, fui à pedicure (creio que era apenas a 3ª vez que lá ia e nem falamos muito porque a senhora não se sente muito à vontade a falar em inglês) e mal cheguei disse-me logo que tinha estado a dar uma arrumação no armário e encontrou a bomba tira-leite; estava ela a pensar quem conhecia que pudesse dar-lhe uso e lembrou-se de mim – é só esterelizá -la e está pronta a ser usada.E é assim que funciona neste país, onde o salário mínimo nacional roça os 1.500 euros mensais mas ninguém atira dinheiro ao ar nem compra algo só porque o vizinho também tem ou por pura ostentação. Aliás, noto mesmo uma expressão de satisfação (diria até quase de felicidade) no rosto das pessoas quando nos dão estas coisas; parecem sentir-se genuinamente bem com esta “transferência” de bens. Chamem-nos forretas mas estes valores são importantes para nós e é com base neles que queremos educar a Maria: não viver para as aparências, não ser materialista, não querer mostrar o que não se tem ou não se precisa ter. Não, não se trata de nenhuma lavagem cerebral depois de quase ano e meio de Holanda – já partilhávamos esta linha de pensamento antes de nos mudarmos para cá, apenas não conheciamos muita gente na Madeira que a partilhasse (especialmente na prática). Aqui, o lema não é gastar enquanto se tem mas sim poupar o que se tem. E não porque se tenha pouco. Os mais ricos gostam tanto das promoções no supermercado quanto os menos ricos. É uma questão cultural."

5 comments:

Sami said...

Concordo plenamente!! Aqui na Australia tambem se compra muita coisa em segunda mao, nao e vergoha nenhuma, e 2 vezes por ano na minha area temos recolha de "lixo" que os residentes nao querem e poem no passeio para ser recolhido e anda muita gente as voltas por ai para recolher coisas que estao em muito bom estado.
Lembro-me de ir a Lisboa quando pela venda do nosso apartamento e pus anuncios a vender toda a mobilia a precos quase dados e ninguem estava interessado. Ao fim de 3 dias dei quase tudo a uma associacao de caridade. E um pais pobre mas com gente que pensa que so devem viver a rica.

Henrique ANTUNES FERREIRA said...

Presépiamiga (Presépio + amiga)

Nunca emigrei, só porque tal não foi necessário. Mas vivi oito anos em Angola, onde o nosso (da Raquel e meu...) terceiro filho, o Luís Carlos nasceu.

Mas, nas minhas andanças pelo Mundo (saberás mais sobre mim na minha Travessa, se o quiseres fazer, o que desde já te agradeço) tive inúmeros exemplos a dizer que os Portugas são do melhor que há...

No Québec tenho duas cunhadas (irmãs da Raquel) e ali viveu o meu sogro os seus últimos anos, e fomos lá muitas e muitas vezes. Em duas delas comprei umas coisas no que eles, os québecois, chamam ventes de garage.

Claro,é um país pobre, tal como a Holanda (onde tive uma namorada quando ela e eu éramos jovens..., de seu nome Thea, que morava em Delf) e outros. Nós, como somos um país rico, com salários altos e coisas assim, gastamos os €€€€ cada vez mais caros e... raros em frioleiras foleiras diversas.

Gostei imenso do teu blogue e quero voltar cá, assim tenha tempo, porque disposição não me falta...

Qjs = queijinhos(*) = beijinhos

Henrique
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(*) Em terra de gouda... não habia nexexidade...

Presépio no Canal said...

Olá Henrique,

Obrigada pela visita e comentário.
Portugal não é um país rico, ambos sabemos disso (mas tem um potencial forte e gente trabalhadora, entre outras qualidades que muito aprecio), e a Holanda já teve uma situação económica e financeira melhor (desde que cá chegámos, o nível de desemprego duplicou, só para dar um exemplo). No entanto, creio que a Ângela referiu algo que aqui é facto: compra-se e vende-se muito em segunda-mão, sendo um procedimento deveras comum, mesmo entre as gerações mais novas, independentemente do nível económico que se tenha. Creio que isso se deve à influência do Calvinismo na mentalidade do povo holandês. Em Portugal, tal como a Ângela referiu, sobretudo entre elementos da nossa geração, costumava-se comprar mais coisas por estrear e havia muita pressão nesse sentido, sendo que as lojas em segunda-mão não eram comuns. Na geração da minha mãe, por exemplo, já não notei tanto isso, talvez por ter passado por dificuldades, que a nossa geração, felizmente, já não passou, pelo menos entre 1990 e 2004, sensivelmente.
Grata, mais uma vez, pelo seu comentário e por ter partilhado connosco a sua experiência no Quebec.
Forte abraço.
PS: Conheço Delft. É uma cidade muito bonita.




GL said...

Conclusão: temos muito que aprender!
Aparentemente é tão simples seguir essas politicas de partilha, mas mudar hábitos, muito principalmente mudar mentalidades, é tudo menos fácil.
Talvez um dia, quem sabe!...

Beijinho

Presépio no Canal said...

GL,

Há um site muito conhecido por cá, o Marktplaats, que é um sucesso, de compra e venda em segunda-mão. Eu ando lá também..;-) E também costumo ajudar as lojas Kringloper, sempre que tenho coisas para dar e as minhas amigas e vizinhas não querem - ou porque não lhes serve ou não têm espaço -, chamo-os, eles vêm cá buscar e o resultado da venda reverte a favor das pessoas com deficiência. E mesmo entre vizinhos é assim. Os meus vizinhos emprestam a máquina para limpar o chão do jardim e nós, o nosso ponto de água, do jardim da frente. E no próximo fim-de-semana, vou dar uma cómoda que já não me faz falta a um casal amigo. Gosto deste espírito, devo dizer. Tudo se aproveita. ;-)
Beijinho!