Hoje à noite, a luz da porta da frente vai estar acesa para que os petizes saibam que estamos à espera deles. Estes bandos de pardais à solta costumam vir em grupo e acompanhados pelos respectivos progenitores, que ficam à entrada do nosso pequeno jardim, enquanto os passarinhos cantadores avançam, tocando à campainha. Quando abro a porta, ternas vozes infantis ecoam corajosamente, pela noite fria, liedjes (canções) de São Martinho, comigo a aguardar, caladinha, de malga na mão. No final, um elogio e a oferta de chocolates. Geralmente, cada criança só costuma retirar um chocolatinho, numa postura muito educada e frugal, como se quer, numa parte do país maioritariamente Calvinista. É uma noite em que elas, as crianças, são soberanas da festa, entre as canções tradicionais, passadas de pais para filhos, e os balões de papel iluminados, feitos na escola ou em casa, durante estes dias. É também, para mim, o dia em que o Outono formalmente se despede, para dar lugar à preparação da chegada do São Nicolau, que anuncia, no meu imaginário, a chegada oficial do Inverno, nestas terras abaixo do nível do mar.
Nesta época, quem vier aos Países Baixos, irá encontrar bandeiras e mochilas penduradas em muitas janelas. Quer isto dizer o quê? Que alguém, nessas casas, passou nos exames finais do ensino secundário. O mesmo será dizer: "Ik ben geslaagd!!!" ("Passei!!!", como se dizia no "meu tempo").
No post anterior, comentei convosco que estivemos na festa de aniversário de um amigo holandês.
Foi uma tarde muito agradável, apesar do Brexit, e em que todos os ritos tradicionais foram cumpridos. A saber:
Congratulações
À chegada, cada um dos convidados deu os parabéns individualmente a todos os presentes na sala ( aniversariante, família e amigos), com um aperto de mão e dizendo "Gefeliciteerd!".
Nos tempos iniciais em terras batavas, estranhava mais este ritual. Agora, mesmo não sendo a aniversariante, já não me faz confusão receber os parabéns de toda a gente (até daqueles que não conheço).
O círculo das cadeiras
As cadeiras da mesa de jantar foram dispostas em círculo à volta da mesa da zona de estar. Assim, ficamos de frente uns para os outros e acabamos a conversar mais em grupo alargado. Este é um dos aspectos que os expatriados mais estranham, de acordo com o que vamos falando entre nós e lendo na net. Quando não conhecemos as pessoas e ainda não dominamos a língua, pode ser um pouco intimidatório. No meu caso, adaptei-me bem a este ritual e, nesta família em particular, não há resistência em falar inglês.
O café da praxe
Quando nos sentámos, perguntaram-nos se queríamos um café, um chá ou outra bebida.
(entenda-se por "café" uma caneca cheia. Se quisermos uma bica, pedimos um espresso.)
Lang Zal Zij Leven
Momentos mais tarde, antes de partirmos o bolo, cantámos o Lang Zal Ze Leven,
Flores e Postais
E não faltaram as flores e os postais de aniversário, claro. O nosso era um hamburger que dizia "BirthdayKing".
Lanche
Além do tradicional bolo de aniversário, café, chá, sumos e snacks, havia várias travessas de comida e jantar-buffet. Explico: a mulher do nosso amigo é indonésia e gosta de mesa farta. Geralmente, as mesas de aniversário holandesas são mais modestas. Às vezes, até há panquecas ou hamburgers, mas não costuma haver gelatina, pudim flan, mousse de chocolate, tortas várias, charlotte, salame, sandes disto e daquilo, etc. No entanto, se alguém já teve uma experiência mais substancial, por favor, partilhe. :-)
Esta foto (tirada com telemóvel pelo meu marido) é da mesa de jantar.
Na zona de estar, havia mais travessas.
No final, ainda trouxemos comida connosco. A lasanha vegetariana estava óptima! E confesso que abusei dos bolinhos de banana frita...:-)
Vários filmes sobre a II Guerra Mundial costumam passar durante estes dias na TV. Este ano, revimos a Lista de Schindler (1993), mas há outros, holandeses, que recomendo, como este abaixo, baseado num romance da Tessa de Loo, escritora neerlandesa a viver desde há uns anos em Portugal (Algarve, Loulé).
Todos os anos, este espectáculo encerra com esta canção, agora com o Rei Willem-Alexander e a Rainha Máxima.
Este ano, festejámos o 5 de Maio em Almere. Após o almoço, fomos até ao centro da cidade tomar café e depois seguimos para o concerto junto ao lago Weerwater. Havia vários palcos espalhados pela cidade e os concertos eram todos gratuitos.
Uma das bolas "Liberdade" (Vrijheid) que andou "a voar" por lá.
Gostei imenso da organização do evento. As forças de segurança, embora discretas, estavam presentes, com várias equipas policiais aqui e ali. As malas eram revistadas à entrada do recinto e não podíamos levar garrafas ou latas de bebidas connosco. Já no recinto, havia várias tendinhas, não só de bebidas, mas também de comida. No nosso caso, pedimos uns smothies com pedaços de fruta. Soube bem, pois estava sol. Entretanto, não pude deixar de reparar na heterogeneidade do público. Havia pessoas com mobilidade reduzida (de muletas e cadeiras de rodas), crianças pequenas às cavalitas dos pais ou ao colo dos avós, jovens papás com os carrinhos de bebé, adolescentes e jovens, casais, famílias. Um ambiente muito tranquilo e descontraído. Assistentes do evento distribuíam chapéus verdes para proteger do sol e bandeirinhas verdes às crianças para andarem sinalizadas, enquanto estas corriam e brincavam no recinto, ao som dos Bon Jovi, do "Thriller" de Michael Jackson, dos Queen e do Brian Adams, em covers bem conseguidas pelo grupo neerlandês Daredevils. Jovens, pais e avós dançavam. Uma hora de concerto que soube bem. Haveria mais à noite, já com outros grupos, mas nós voltámos para casa. De salientar que, no concerto, um jovem estudante sírio veio falar sobre a Liberdade e disse algo que considerei muito oportuno e pertinente - para não a tomarmos por garantida e fazermos tudo o que estiver ao nosso alcance para a salvaguardarmos. Uma reflexão avisada, pareceu-me.
Os festejos deste dia terminaram junto à TV a ver a transmissão do concerto no Rio Amstel, em Amsterdam. Deste concerto gostei da Royal Filharmonisch Orkest (podem ver aqui as peças musicais executadas) e das cantoras protagonistas do musical De Twelling (baseado no romance de Tessa de Loo). Uma destas cantoras chama-se Rosa da Silva, mas não consegui descobrir se tem ascendência portuguesa ou não.
Vendaval. Chuva. Frio. Hoje o dia está assim. Bom para estar em casa, no quentinho, a preparar a Pakjesavond (Noite dos Presentes) que se celebra esta noite.
Hoje, as crianças colocam os seus sapatinhos (ou meias) junto à lareira (ou ao radiador) para que o Sinterklaas(São Nicolau) deixe lá os seus presentes, com a ajuda dos Pedros Pretos, claro. O cavalo do Sinterklaas, o Amerigo, também não é esquecido. À sua espera, numa taça, está uma cenoura ou um pouco de feno. Afinal, a noite é bastante cansativa, que os meninos portaram-se todos muito bem durante o ano e há muitas casas para visitar e presentes (simples e simbólicos) para distribuir, especialmente, as famosas letras de chocolate com a inicial do nome de cada um...
A manhã promete ser animada, pois a entrega das prendinhas é geralmente acompanhada de uns versos humorísticos e divertidos sobre as pessoas a quem elas se destinam e que estas devem ler em voz alta para gáudio de todos os convivas.
Bom, agora, se me dão licença, vou ali tentar esgalhar algumas rimas ...;-))